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A mostrar mensagens de fevereiro, 2026

Filosofia da Ciência

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 Já aqui falei da excelente série The Great Philosophers, exibida pela BBC em 1987, e que deu origem a um livro (traduzido em português pela Presença). Bryan Magee, o coordenador, já antes nos oferecera alguns programas com filósofos relevantes. É o caso desta entrevista com Hilary Putnam, acerca da filosofia da ciência.

Os problemas do filósofo

 "Se eu, ilustríssimo cavaleiro, manejasse o arado, apascentasse um rebanho, cultivasse uma horta, remendasse um fato, ninguém faria caso de mim, raros me observariam, poucos me censurariam, e facilmente poderia agradar a todos. Mas, por eu ser delineador do campo da natureza, atento ao alimento da alma, ansioso da cultura do espírito e estudioso da actividade do intelecto, eis que me ameaça quem se sente visado, me assalta quem se vê observado, me morde quem é atingido, me devora quem se sente descoberto. E não é só um, não são poucos, são muitos, são quase todos."- Giordano Bruno, Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos (trad. Aura Montenegro), Lisboa, FCG, 1984, p.1.

Estética

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 Pode não parecer, à primeira vista. Pode parecer apenas uma banda punk, mas não é. Porque a capa deste álbum é das mais bonitas que já se fizeram em Portugal. Numa simples fotografia encontramos a essência do punk, um espectro que vai da irreverência à amizade e á fidelidade. Captar isto numa só fotografia é tarefa ao alcance de poucos. A estética também é isto, a arte onde menos se espera. Aparentemente.

Determinismo cultural?

  “Desde a nascença, todo o indivíduo começa a receber a herança cultural, que assegura a sua formação, a sua orientação, o seu desenvolvimento de ser social. A herança cultural não vem unicamente sobrepor-se à hereditariedade genética.” - Edgar Morin, O Paradigma Perdido.

E uma crítica papal com a qual Robert Nozick aparentemente não concordaria

  1.        “Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controlo dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras.” - Papa Francisco, A Alegria do Evangelho, Paulinas, 2013.

Livre-arbítrio?

  ” Devo muito pouco ao meio, à educação, à linhagem do meu sangue. Em larga medida, encontrei-me em oposição quer à tradição predominante no Ocidente – o cristianismo e o catolicismo -, quer à civilização actual, o ‘mundo moderno ’democrático e materialista, para não referir a cultura e a mentalidade dominantes na nação em que nasci, a Itália, e, finalmente, o meu meio familiar. De qualquer modo a influência de tudo isto não foi senão indirecta, negativa, não provocou em mim senão reacções.” - Julius Evola.

Hoje só temos tempo para uma sugestão

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 Num mundo maioritariamente dominado por canais em português do Brasil, alguns deles com bastante qualidade (caso do Didatics), a referência a um em português de Portugal. Podem melhorar o som e a dicção, mas os conteúdos são bem apresentados e oferecem um panorama global das aprendizagens essenciais da disciplina.

Breve esboço sobre a democracia em Portugal

  No ano de 1820 deu-se a revolução liberal em Portugal. Até à data o país vivera sob regime monárquico, não-constitucional. E, se durante a Idade Média existiram as cortes, regularmente convocadas, nos séculos XVII e XVIII as mesmas foram sendo progressivamente esquecidas. O sistema monárquico tornou-se absolutista (com D.João V e D.José I).   Na sequência da revolução liberal foi elaborada a Carta Constitucional e, posteriormente, uma Constituição. O sistema passou a ser a monarquia constitucional, no qual o rei já não possui o poder absoluto e se encontra condicionado pelas normas escritas naquele que é, agora, o documento fundamental do país.   Progressivamente este regime foi-se tornando mais sólido, mas a existência de uma constituição e da separação de poderes não bastavam para fazer de Portugal uma democracia. Criaram-se partidos, existiam eleições regulares, mas o número de eleitores era muito reduzido em relação à população total do país. Além disso vivia-se...

Estado

  “O Estado tem vida própria. É uma espécie de organismo: a populaça é o seu ‘corpo político’; o aparato governamental a sua ‘cabeça’. E as pessoas devem aceitar (e em geral aceitam) o que encontram porque a alternativa é a desestabilização- o caos, uma ‘guerra de todos contra todos’.   E em tal situação toda a gente fica pior.   A justificação de Hobbes para reconhecer os ‘poderes instalados’ era efectivamente a seguinte: considere-se a alternativa. Pergunte-se a si próprio que género de situação teria numa sociedade na qual toda a gente estabelecesse a sua própria lei. O resultado seria a liberdade completa sujeita ao princípio do cada qual por si. As suas hipóteses de ter uma vida satisfatória seriam praticamente nulas.”- Nicholas Rescher, Uma Viagem Pela Filosofia em 101 Episódios, p.140, Gradiva, Lisboa, 2018.

As duas vias da ciência

 "Mais claro nos aparece agora o problema, problema intransponível, que estávamos expondo levantar-se ele à ciência moderna: o de lhe ser impossível, tendo de negar realidade ao mundo sensível, atribuir valor de conhecimento à sensação. Ora também vimos que a ciência não só nega realidade ao mundo sensível como o isola do inteligível, que passa a ignorar. Onde, então, vai a ciência firmar a origem do conhecimento? Que valor de conhecimento pode ter a sensação se o sensível, ou o sentido, não é real? Como, sobre isso, atribuir á sensação, não apenas valor, mas plenitude de conhecimento? Como entender?  Tornou-se o problema intransponível quando a ciência escolheu, entre as duas vias que se lhe ofereciam, a do experimentalismo. A outra via, preterida, é a do espiritualismo. A escolhida, foi a aberta por Galileu. A preterida, é a representada por Descartes."- Orlando Vitorino, As Teses da Filosofia Portuguesa , Lisboa, Guimarães, 2015, p.153-154.

Algumas notas sobre o legado greco-romano

  “Melina Mercouri, a actriz deslumbrante que se converteu na ministra da cultura mais famosa da Grécia, sabia como dirigir-se às audiências. Num grande colóquio internacional, levantou-se e declarou:   -Perdoem-me (…) mas antes devo pronunciar algumas palavras em grego. Fez uma pausa enquanto os delegados, com ar conformado, se recostavam nos assentos e, com uma lentidão brilhante, acrescentou:   - Democracia. Política. Matemática. Teatro…   No Ocidente contemporâneo, falar de cultura é falar grego.” (Goldhill).   É no mesmo sentido que se pronuncia Jacqueline Russ quando nos diz que “A todo o momento, quando lemos, vamos ao teatro ou utilizamos o vocabulário médico ou científico, falamos grego, pensamos grego ou respiramos o ar dos séculos V e VI atenienses, mas também dessa civilização helenística”, acrescentando ainda que “ a civilização grega origina modelos culturais que manifestarão uma fabulosa energia”.   Mas nem sequer precisamos, para...

E com ligação ao postal anterior...

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Uma obra muito boa, infelizmente penso que se encontra actualmente esgotada. 

uma reflexão sobre o desastre de Lisboa

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 Neste dia, em que na região Oeste sentimos alguns sismos, fica a lembrança de que a grande tragédia de Lisboa marcou de forma indelével a Modernidade e ecoou através da pena de alguns dos mais importantes pensadores da época. Foi o caso de Voltaire.

Sobre a natureza humana

 "É fundamentalmente a procura da verdade, assim como a sua investigação, própria do homem. Por isso, quando nos encontramos libertados das exigências dos nossos afazeres, ficamos desejosos de ver, ouvir e aprender algo de novo, provando um desejo de conhecer os segredos ou maravilhas da criação necessários a uma vida feliz. daqui pode compreender-se como é simples, genuíno e verdadeiro tudo aquilo que é profundamente intrínseco à natureza do homem. A esta paixão de descobrir a verdade se junta um certo apetite de preponderância, daqui resultando o facto de jamais espírito algum, pela natureza bem formado, desejar a ninguém se submeter, excepto àquele que estabelece as vias de conduta ou é o mestre da verdade ou que, para benefício do bem comum, governa segundo a lei e a justiça - desta situação provém a grandeza de alma e, simultaneamente, um certo contempto pelas coisas humanas."- Cícero, Dos Deveres (trad. de Carlos Humberto Gomes), Lisboa, Edições 70, 2000, pp.19-20.

Metafísica dos Costumes

  "A “metafisica dos costumes” é, de acordo com a definição de Kant, uma metafisica do uso prático da razão pura, ou seja, uma «metafisica da liberdade». Do ponto de vista da filosofia crítica, os “costumes” não são entendidos de um jeito institucionalista, mas como atuação do princípio da liberdade. As doutrinas da moralidade ( Lehren der Sittlichkeit ) têm como objeto as “leis da razão pura Prática” ou “leis da liberdade”, subdividindo-as Kant em leis “jurídicas” e leis “éticas”, e nessa doutrina pura dos costumes “não se toma por fundamento nenhuma antropologia (nenhuma condição empírica)”, mas sim a estrutura da vontade ( Wille ) moral, como autodeterminação pura e incondicionada: a liberdade, como autonomia, é a  ratio essendi  da lei moral e a lei moral a  ratio cognoscendi  da liberdade. A doutrina dos costumes ( Sittenlehre ) só é possível a partir de “um princípio prático puro, que constitui inevitavelmente o começo e determina os objetos com os qu...

Ciência e poesia

 "O poeta é anarquista, como o cientista é comunista. Daí, o conflito entre a ciência prática e a intuição poética, ou entre Orfeu e Aristóteles, ou entre a ciência da Criação, dada no primeiro plano restrito ou limitado, e a do Criador nesse plano infindo e misterioso, a que aludi. Mas os cientistas restringem tudo a esse primeiro plano; e como ele está cientificamente descoberto, afirmam que mais nada existe, e legislam a desdivinização da Existência. E todavia, esses geómetras nunca definiram uma recta, essa linha que nunca perde a direcção inicial, tirada, dum dado ponto do planeta, para o céu, e em perpétuo crescimento...  Mas do conflito entre a ciência e a poesia, também resulta o aperfeiçoamento adâmico do antropóide, esse herói de Darwin a transitar para o de Moisés. O antropóide a adamificar-se, a mudar o pêlo natural em fato artificial, ou saído da Selva a caminho do Paraíso, o homem actual, o homem que nós somos, neste mesmo instante, insatisfeito com a sua própria...

Cobiça

 "A nossa cidade não sucumbirá pelos decretos de Zeus nem pelo conselho dos deuses bemaventurados, pois Palas Ateneia estendeu sobre ela as suas mãos. São os próprios cidadãos que querem arruiná-la por causa da sua cobiça e da sua estupidez."- Sólon, in Afonso Botelho, Origem e Actualidade do Civismo , Lisboa, Terra Livre, 1979.

E uma sugestão filosófica

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  Lançado recentemente, daquele que é possivelmente o mais importante dos filósofos espanhóis do século XX. Uma breve introdução à filosofia e a algumas das suas temáticas.

Conhecimento

  “Assim, suponha-se que o leitor vê um celeiro à beira da estrada e acredita que é um celeiro. É perfeitamente justificável, dado que habitualmente consegue ver que está a olhar para um celeiro. Porém, sem o saber, o leitor está a passar por um reino de “celeiros de Potemkin”: fachadas falsas de celeiros construídos pelos estúdios de Hollywood. (Grigori Potemkin foi um ministro de Catarina, a Grande, da Rússia, e parece que a enganou com respeito às suas conquistas na Crimeia fazendo erigir fachadas falsas de aldeias quando ela fez uma visita, de modo que tudo parecia cor-de-rosa). Por acaso, o leitor olhou para um dos raros celeiros reais, de modo que, apesar de a sua crença estar justificada e ser verdadeira, não sabia realmente que estava a ver um celeiro”.-  Simon Blackburn, As Grandes Questões da Filosofia, Gradiva, 2018, p.52 .

Liberdade

  “Otto Dix (…) durante o seu serviço na frente, viu suficientes salvas de artilharia para reconhecer uma espécie de Gólgota no rescaldo dos ataques (…). Mas Dix (…) recusava-se a considerar que o sofrimento de Cristo tivesse servido algum propósito. Imaginar que servira qualquer fim era apegar-se aos valores de um escravo ‘Ser crucificado, conhecer o mais profundo abismo da vida’ era a sua própria recompensa. Quando Dix se alistou, em 1914, fê-lo porque queria conhecer os extremos da vida e da morte (…). Só na inebriação de experiências deste tipo é que um homem podia ser mais do que um homem: um Ubermensch [super-homem]. Ser livre era ser grande; e ser grande era ser terrível. Não fora a Bíblia a ensiná-lo a Dix” - Tom Holland, Domínio , Vogais, 2022, p.511-512.

Um espectáculo grandioso

  “É um espectáculo grandioso e belo ver o homem sair do nada, por assim dizer, pelo seu próprio esforço: dissipar por meio das trevas da sua razão as trevas nas quais a natureza o envolvera; elevar-se acima dele mesmo; alçar-se através do espírito às regiões celestes; como o Sol, percorrer a passo de gigante a vastidão do universo; e, mais grandioso e difícil ainda, voltar-se para si mesmo para aí examinar o homem e conhecer a sua natureza”.-  J. J. Rousseau, Discurso Sobre as Ciências e as Artes , Edições 70, 2019, p.27.

Compatibilismo

 " Por um lado, um conjunto de argumentos muito poderosos força-nos à conclusão de que a vontade livre não existe no Universo. Por outro, uma série de argumentos poderosos baseados em factos da nossa própria experiência inclina-nos para a conclusão de que deve haver alguma liberdade da vontade, porque aí todos a experimentamos em todo o tempo.  Há uma solução corrente para este enigma filosófico. Segundo essa solução, a vontade livre e o determinismo são perfeitamente compatíveis entre si."-  John Searle, Mente, Cérebro e Ciência , Edições 70, 1984, p. 108.

E hoje...

 ...passam 376 anos sobre a morte de Descartes, em Estocolmo.

E ainda o relativismo

  "A ideia de que a ética é apenas uma questão de convenções sociais atraiu sempre as pessoas educadas. Culturas diferentes têm códigos morais diferentes, diz-se e pensar que há um padrão universal que se aplica em todas as épocas e lugares não passa de uma ingenuidade. É fácil encontrar exemplos. Nos países islâmicos, os homens podem ter mais do que uma mulher. Na Europa medieval, pensava-se que emprestar dinheiro a juros era pecado. Os povos nativos do norte da Gronelândia por vezes abandonavam as pessoas velhas, deixando-as morrer ao frio. Ao pensar em exemplos como estes, os antropólogos concordam há muito com a afirmação de Heródoto: ‘O costume é o rei de todos nós’.”-   James Rachels, Problemas da Filosofia, Gradiva, 2009, pp.237

Relativismo (de novo)

  "É uma verdade incontroversa que pessoas de diferentes sociedades têm costumes diferentes e diferentes ideias acerca do bem e acerca do mal morais. Não há consenso mundial sobre a questão de saber que acções são moralmente boas e moralmente más, apesar de existir uma convergência considerável sobre estas matérias. Se tivermos em consideração o quanto as ideias morais mudam, quer de lugar para lugar, quer ao longo do tempo, pode ser tentador pensar que não existem factos morais absolutos e que, pelo contrário, a moral é sempre relativa à sociedade na qual fomos educados."  Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia , Gradiva, 1998, pp.98-99

Pensar Como um Filósofo

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  De Julian Baggini já tinha sido publicada a obra As Fronteiras da Razão na Filosofia Aberta. Agora, nesta colecção aparentemente renovada, surge novo título. É o primeiro desde que a editora Guerra e Paz assumiu a parceria com a Gradiva. Que a Filosofia Aberta continue com a qualidade a que nos habituou é o que se deseja. E não há razões para que assim não seja, conhecendo o trabalho que a Guerra e paz também tem feito no âmbito filosófico.

Uma boa questão

  "Se fizermos um inventário do mundo, anotando todas as coisas que existem, poderemos fazer uma lista muito longa que mencione pedras, rios, montanhas, plantas e animais. Encontraríamos edifícios, desertos, grutas, ferro e ar. Olhando para cima, veríamos estrelas e galáxias. Obviamente, nunca conseguiríamos concluir essa lista. (…)   Mas, entre todas essas coisas, onde estão os valores? Em lado nenhum, parece ser a resposta. Os valores não existem, pelo menos da mesma forma que as pedras e os rios. Considerado à margem dos sentimentos e dos interesses humanos, o mundo parece não incluir quaisquer valores."-  James Rachels, Problemas da Filosofia , Gradiva, 2009, p.251

Determinismo

  "Supõe que estás na bicha de uma cantina e que, quando chegas às sobremesas, hesitas entre um pêssego e uma grande fatia de bolo de chocolate com uma cremosa cobertura de natas. O bolo tem bom aspecto, mas sabes que engorda. Ainda assim, tiras o bolo e come-lo com prazer. No dia seguinte vês-te ao espelho, ou pesas-te, e pensas: “Quem me dera não ter comido o bolo de chocolate. Poia antes ter comido o pêssego”.  “Podia ter comido antes o pêssego.” Que quer isto dizer? E será verdade?"-  Thomas Nagel, Que Quer Dizer Tudo Isto? , Gradiva, 1995, p. 46.

Aparências

  "O mais inexorável dos factos é que se o leitor for mantido debaixo de água, afoga-se, ou que se saltar pela janela, cai. Parecemos então cativos indefesos dos acontecimentos, e na verdade de acontecimentos que vão muito além do nosso nascimento, até ao início do próprio tempo." Simon Blackburn, As Grandes Questões da Filosofia , Gradiva, 2018, p. 37.

Relativismo (2)

  Em verdade, os homens deram a si próprios todo o seu Bem e Mal (…). Antes de tudo, o homem atribuiu valores às coisas a fim de se manter -começou por criar um sentido para as coisas, um sentido humano! Por isso, ele se chama “homem”, isto é, aquele que avalia.   Avaliar é criar (…). O próprio acto de avaliar é que constitui o tesouro e a jóia de todas as coisas avaliadas.   Só mediante o avaliar é que há valor, e, sem a avaliação, a noz da existência seria oca.   Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra , Relógio d’Água, 1998, pp.67-68

Relativismo

  "Xenófanes inaugura a doutrina do relativismo: a posição de que a verdade das coisas (…) está nos olhos do observador ou, para ser mais preciso, nos tipos de observadores em questão.  A ideia basilar aqui é que observadores diferentemente localizados irão ver as coisas do seu próprio ponto de vista. A ideia foi mais elaborada por (…) Protágoras."-   Nicholas Rescher, Uma Viagem Pela Filosofia em 101 Episódios , Gradiva, 2018, p.28.

E como o blogue hoje faz anos...mais um texto do sr. Popper

    “Dá-se o caso de os astrólogos sempre se terem vangloriado de que as suas teorias se baseavam num número enorme de verificações- numa quantidade esmagadora de provas indutivas. Essa pretensão nunca foi seriamente investigada nem explorada, e não vejo porque é que não haveria de ser verdadeira. Mas pouco ou nada interessante é saber se a astrologia foi muitas vezes ou poucas verificada; a questão é a de saber se ela alguma vez foi seriamente testada por meio de tentativas sinceras de a falsificar.”  Karl Popper, O Realismo e o Objectivo da Ciência, Dom Quixote , 1977, p.65

Observação

  “Há vinte e cinco anos, tentei trazer esta questão a um grupo de estudantes de Física, em Viena, iniciando uma conferência com as seguintes instruções: ‘Peguem no lápis e no papel; observem cuidadosamente e anotem o que observarem!” Eles perguntaram, como é óbvio, o que é que eu queria que eles observassem. Manifestamente, a instrução ‘Observem!’ é absurda. (…). A observação é sempre selectiva. Requer um objecto determinado, uma tarefa definida, um interesse, um ponto de partida, um problema”.  Karl Popper, Conjecturas e Refutações , Almedina, 2003, p.72.

Continuidade e descontinuidade na ciência

  “ Bem, em boa-fé, multiplicamo-nos nos nossos representantes. Quão facilmente adoptamos os seus labores! Cada barco que chega à América deve a Colombo a sua carta náutica. Todo o romance é devedor de Homero. O carpinteiro que aplaina com a sua garlopa toma de empréstimo o génio de um inventor esquecido. A vida está rodeada por um zodíaco de ciência, pelas contribuições de homens que morreram para acrescentar o seu ponto de luz ao nosso céu. (…) Estes construtores de caminhos de vários destinos enriquecem-nos.”- Ralph Waldo Emerson, Homens Representativos , Lisboa, Edições 70, 2021, p.13.

O que é a ciência?

  “ A ciência não é um sistema de afirmações certas  ou bem estabelecidas; nem é um sistema que avance regularmente para um estado de finalidade. A nossa ciência não é conhecimento (episteme): nunca pode reivindicar ter atingido a verdade, ou sequer algo que a substitua, como a probabilidade […]. Na ciência não sabemos: só podemos adivinhar. E adivinhamos usando como guia a fé não-científica, metafísica (ainda que biologicamente explicável), nas leis, em regularidades que nunca podemos pôr a descoberto – ou descobrir. O nosso método de investigação não é defender o que adivinhamos para provar que tínhamos razão. Pelo contrário, tentamos derrubar o que adivinhamos.”- Karl Popper, cit. In Nicholas Rescher, Uma Viagem Pela Filosofia em 101 Episódios , Gradiva, 2018, pp.311-312