Ciência e poesia
"O poeta é anarquista, como o cientista é comunista. Daí, o conflito entre a ciência prática e a intuição poética, ou entre Orfeu e Aristóteles, ou entre a ciência da Criação, dada no primeiro plano restrito ou limitado, e a do Criador nesse plano infindo e misterioso, a que aludi. Mas os cientistas restringem tudo a esse primeiro plano; e como ele está cientificamente descoberto, afirmam que mais nada existe, e legislam a desdivinização da Existência. E todavia, esses geómetras nunca definiram uma recta, essa linha que nunca perde a direcção inicial, tirada, dum dado ponto do planeta, para o céu, e em perpétuo crescimento...
Mas do conflito entre a ciência e a poesia, também resulta o aperfeiçoamento adâmico do antropóide, esse herói de Darwin a transitar para o de Moisés. O antropóide a adamificar-se, a mudar o pêlo natural em fato artificial, ou saído da Selva a caminho do Paraíso, o homem actual, o homem que nós somos, neste mesmo instante, insatisfeito com a sua própria condição! E sendo mortal, ambicioso de imortalidade! E ambiciona o Divino, sendo humano!"- Teixeira de Pascoaes, A Minha Cartilha, Figueira da Foz, 1954, p.35.
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