Mensagens

Breve esboço sobre a democracia em Portugal

  No ano de 1820 deu-se a revolução liberal em Portugal. Até à data o país vivera sob regime monárquico, não-constitucional. E, se durante a Idade Média existiram as cortes, regularmente convocadas, nos séculos XVII e XVIII as mesmas foram sendo progressivamente esquecidas. O sistema monárquico tornou-se absolutista (com D.João V e D.José I).   Na sequência da revolução liberal foi elaborada a Carta Constitucional e, posteriormente, uma Constituição. O sistema passou a ser a monarquia constitucional, no qual o rei já não possui o poder absoluto e se encontra condicionado pelas normas escritas naquele que é, agora, o documento fundamental do país.   Progressivamente este regime foi-se tornando mais sólido, mas a existência de uma constituição e da separação de poderes não bastavam para fazer de Portugal uma democracia. Criaram-se partidos, existiam eleições regulares, mas o número de eleitores era muito reduzido em relação à população total do país. Além disso vivia-se...

Estado

  “O Estado tem vida própria. É uma espécie de organismo: a populaça é o seu ‘corpo político’; o aparato governamental a sua ‘cabeça’. E as pessoas devem aceitar (e em geral aceitam) o que encontram porque a alternativa é a desestabilização- o caos, uma ‘guerra de todos contra todos’.   E em tal situação toda a gente fica pior.   A justificação de Hobbes para reconhecer os ‘poderes instalados’ era efectivamente a seguinte: considere-se a alternativa. Pergunte-se a si próprio que género de situação teria numa sociedade na qual toda a gente estabelecesse a sua própria lei. O resultado seria a liberdade completa sujeita ao princípio do cada qual por si. As suas hipóteses de ter uma vida satisfatória seriam praticamente nulas.”- Nicholas Rescher, Uma Viagem Pela Filosofia em 101 Episódios, p.140, Gradiva, Lisboa, 2018.

As duas vias da ciência

 "Mais claro nos aparece agora o problema, problema intransponível, que estávamos expondo levantar-se ele à ciência moderna: o de lhe ser impossível, tendo de negar realidade ao mundo sensível, atribuir valor de conhecimento à sensação. Ora também vimos que a ciência não só nega realidade ao mundo sensível como o isola do inteligível, que passa a ignorar. Onde, então, vai a ciência firmar a origem do conhecimento? Que valor de conhecimento pode ter a sensação se o sensível, ou o sentido, não é real? Como, sobre isso, atribuir á sensação, não apenas valor, mas plenitude de conhecimento? Como entender?  Tornou-se o problema intransponível quando a ciência escolheu, entre as duas vias que se lhe ofereciam, a do experimentalismo. A outra via, preterida, é a do espiritualismo. A escolhida, foi a aberta por Galileu. A preterida, é a representada por Descartes."- Orlando Vitorino, As Teses da Filosofia Portuguesa , Lisboa, Guimarães, 2015, p.153-154.

Algumas notas sobre o legado greco-romano

  “Melina Mercouri, a actriz deslumbrante que se converteu na ministra da cultura mais famosa da Grécia, sabia como dirigir-se às audiências. Num grande colóquio internacional, levantou-se e declarou:   -Perdoem-me (…) mas antes devo pronunciar algumas palavras em grego. Fez uma pausa enquanto os delegados, com ar conformado, se recostavam nos assentos e, com uma lentidão brilhante, acrescentou:   - Democracia. Política. Matemática. Teatro…   No Ocidente contemporâneo, falar de cultura é falar grego.” (Goldhill).   É no mesmo sentido que se pronuncia Jacqueline Russ quando nos diz que “A todo o momento, quando lemos, vamos ao teatro ou utilizamos o vocabulário médico ou científico, falamos grego, pensamos grego ou respiramos o ar dos séculos V e VI atenienses, mas também dessa civilização helenística”, acrescentando ainda que “ a civilização grega origina modelos culturais que manifestarão uma fabulosa energia”.   Mas nem sequer precisamos, para...

E com ligação ao postal anterior...

Imagem
Uma obra muito boa, infelizmente penso que se encontra actualmente esgotada. 

uma reflexão sobre o desastre de Lisboa

Imagem
 Neste dia, em que na região Oeste sentimos alguns sismos, fica a lembrança de que a grande tragédia de Lisboa marcou de forma indelével a Modernidade e ecoou através da pena de alguns dos mais importantes pensadores da época. Foi o caso de Voltaire.

Sobre a natureza humana

 "É fundamentalmente a procura da verdade, assim como a sua investigação, própria do homem. Por isso, quando nos encontramos libertados das exigências dos nossos afazeres, ficamos desejosos de ver, ouvir e aprender algo de novo, provando um desejo de conhecer os segredos ou maravilhas da criação necessários a uma vida feliz. daqui pode compreender-se como é simples, genuíno e verdadeiro tudo aquilo que é profundamente intrínseco à natureza do homem. A esta paixão de descobrir a verdade se junta um certo apetite de preponderância, daqui resultando o facto de jamais espírito algum, pela natureza bem formado, desejar a ninguém se submeter, excepto àquele que estabelece as vias de conduta ou é o mestre da verdade ou que, para benefício do bem comum, governa segundo a lei e a justiça - desta situação provém a grandeza de alma e, simultaneamente, um certo contempto pelas coisas humanas."- Cícero, Dos Deveres (trad. de Carlos Humberto Gomes), Lisboa, Edições 70, 2000, pp.19-20.