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Estado

  “O Estado tem vida própria. É uma espécie de organismo: a populaça é o seu ‘corpo político’; o aparato governamental a sua ‘cabeça’. E as pessoas devem aceitar (e em geral aceitam) o que encontram porque a alternativa é a desestabilização- o caos, uma ‘guerra de todos contra todos’.   E em tal situação toda a gente fica pior.   A justificação de Hobbes para reconhecer os ‘poderes instalados’ era efectivamente a seguinte: considere-se a alternativa. Pergunte-se a si próprio que género de situação teria numa sociedade na qual toda a gente estabelecesse a sua própria lei. O resultado seria a liberdade completa sujeita ao princípio do cada qual por si. As suas hipóteses de ter uma vida satisfatória seriam praticamente nulas.”- Nicholas Rescher, Uma Viagem Pela Filosofia em 101 Episódios, p.140, Gradiva, Lisboa, 2018.

As duas vias da ciência

 "Mais claro nos aparece agora o problema, problema intransponível, que estávamos expondo levantar-se ele à ciência moderna: o de lhe ser impossível, tendo de negar realidade ao mundo sensível, atribuir valor de conhecimento à sensação. Ora também vimos que a ciência não só nega realidade ao mundo sensível como o isola do inteligível, que passa a ignorar. Onde, então, vai a ciência firmar a origem do conhecimento? Que valor de conhecimento pode ter a sensação se o sensível, ou o sentido, não é real? Como, sobre isso, atribuir á sensação, não apenas valor, mas plenitude de conhecimento? Como entender?  Tornou-se o problema intransponível quando a ciência escolheu, entre as duas vias que se lhe ofereciam, a do experimentalismo. A outra via, preterida, é a do espiritualismo. A escolhida, foi a aberta por Galileu. A preterida, é a representada por Descartes."- Orlando Vitorino, As Teses da Filosofia Portuguesa , Lisboa, Guimarães, 2015, p.153-154.

Algumas notas sobre o legado greco-romano

  “Melina Mercouri, a actriz deslumbrante que se converteu na ministra da cultura mais famosa da Grécia, sabia como dirigir-se às audiências. Num grande colóquio internacional, levantou-se e declarou:   -Perdoem-me (…) mas antes devo pronunciar algumas palavras em grego. Fez uma pausa enquanto os delegados, com ar conformado, se recostavam nos assentos e, com uma lentidão brilhante, acrescentou:   - Democracia. Política. Matemática. Teatro…   No Ocidente contemporâneo, falar de cultura é falar grego.” (Goldhill).   É no mesmo sentido que se pronuncia Jacqueline Russ quando nos diz que “A todo o momento, quando lemos, vamos ao teatro ou utilizamos o vocabulário médico ou científico, falamos grego, pensamos grego ou respiramos o ar dos séculos V e VI atenienses, mas também dessa civilização helenística”, acrescentando ainda que “ a civilização grega origina modelos culturais que manifestarão uma fabulosa energia”.   Mas nem sequer precisamos, para...

E com ligação ao postal anterior...

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Uma obra muito boa, infelizmente penso que se encontra actualmente esgotada. 

uma reflexão sobre o desastre de Lisboa

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 Neste dia, em que na região Oeste sentimos alguns sismos, fica a lembrança de que a grande tragédia de Lisboa marcou de forma indelével a Modernidade e ecoou através da pena de alguns dos mais importantes pensadores da época. Foi o caso de Voltaire.

Sobre a natureza humana

 "É fundamentalmente a procura da verdade, assim como a sua investigação, própria do homem. Por isso, quando nos encontramos libertados das exigências dos nossos afazeres, ficamos desejosos de ver, ouvir e aprender algo de novo, provando um desejo de conhecer os segredos ou maravilhas da criação necessários a uma vida feliz. daqui pode compreender-se como é simples, genuíno e verdadeiro tudo aquilo que é profundamente intrínseco à natureza do homem. A esta paixão de descobrir a verdade se junta um certo apetite de preponderância, daqui resultando o facto de jamais espírito algum, pela natureza bem formado, desejar a ninguém se submeter, excepto àquele que estabelece as vias de conduta ou é o mestre da verdade ou que, para benefício do bem comum, governa segundo a lei e a justiça - desta situação provém a grandeza de alma e, simultaneamente, um certo contempto pelas coisas humanas."- Cícero, Dos Deveres (trad. de Carlos Humberto Gomes), Lisboa, Edições 70, 2000, pp.19-20.

Metafísica dos Costumes

  "A “metafisica dos costumes” é, de acordo com a definição de Kant, uma metafisica do uso prático da razão pura, ou seja, uma «metafisica da liberdade». Do ponto de vista da filosofia crítica, os “costumes” não são entendidos de um jeito institucionalista, mas como atuação do princípio da liberdade. As doutrinas da moralidade ( Lehren der Sittlichkeit ) têm como objeto as “leis da razão pura Prática” ou “leis da liberdade”, subdividindo-as Kant em leis “jurídicas” e leis “éticas”, e nessa doutrina pura dos costumes “não se toma por fundamento nenhuma antropologia (nenhuma condição empírica)”, mas sim a estrutura da vontade ( Wille ) moral, como autodeterminação pura e incondicionada: a liberdade, como autonomia, é a  ratio essendi  da lei moral e a lei moral a  ratio cognoscendi  da liberdade. A doutrina dos costumes ( Sittenlehre ) só é possível a partir de “um princípio prático puro, que constitui inevitavelmente o começo e determina os objetos com os qu...