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Sobre a natureza humana

 "É fundamentalmente a procura da verdade, assim como a sua investigação, própria do homem. Por isso, quando nos encontramos libertados das exigências dos nossos afazeres, ficamos desejosos de ver, ouvir e aprender algo de novo, provando um desejo de conhecer os segredos ou maravilhas da criação necessários a uma vida feliz. daqui pode compreender-se como é simples, genuíno e verdadeiro tudo aquilo que é profundamente intrínseco à natureza do homem. A esta paixão de descobrir a verdade se junta um certo apetite de preponderância, daqui resultando o facto de jamais espírito algum, pela natureza bem formado, desejar a ninguém se submeter, excepto àquele que estabelece as vias de conduta ou é o mestre da verdade ou que, para benefício do bem comum, governa segundo a lei e a justiça - desta situação provém a grandeza de alma e, simultaneamente, um certo contempto pelas coisas humanas."- Cícero, Dos Deveres (trad. de Carlos Humberto Gomes), Lisboa, Edições 70, 2000, pp.19-20.

Metafísica dos Costumes

  "A “metafisica dos costumes” é, de acordo com a definição de Kant, uma metafisica do uso prático da razão pura, ou seja, uma «metafisica da liberdade». Do ponto de vista da filosofia crítica, os “costumes” não são entendidos de um jeito institucionalista, mas como atuação do princípio da liberdade. As doutrinas da moralidade ( Lehren der Sittlichkeit ) têm como objeto as “leis da razão pura Prática” ou “leis da liberdade”, subdividindo-as Kant em leis “jurídicas” e leis “éticas”, e nessa doutrina pura dos costumes “não se toma por fundamento nenhuma antropologia (nenhuma condição empírica)”, mas sim a estrutura da vontade ( Wille ) moral, como autodeterminação pura e incondicionada: a liberdade, como autonomia, é a  ratio essendi  da lei moral e a lei moral a  ratio cognoscendi  da liberdade. A doutrina dos costumes ( Sittenlehre ) só é possível a partir de “um princípio prático puro, que constitui inevitavelmente o começo e determina os objetos com os qu...

Ciência e poesia

 "O poeta é anarquista, como o cientista é comunista. Daí, o conflito entre a ciência prática e a intuição poética, ou entre Orfeu e Aristóteles, ou entre a ciência da Criação, dada no primeiro plano restrito ou limitado, e a do Criador nesse plano infindo e misterioso, a que aludi. Mas os cientistas restringem tudo a esse primeiro plano; e como ele está cientificamente descoberto, afirmam que mais nada existe, e legislam a desdivinização da Existência. E todavia, esses geómetras nunca definiram uma recta, essa linha que nunca perde a direcção inicial, tirada, dum dado ponto do planeta, para o céu, e em perpétuo crescimento...  Mas do conflito entre a ciência e a poesia, também resulta o aperfeiçoamento adâmico do antropóide, esse herói de Darwin a transitar para o de Moisés. O antropóide a adamificar-se, a mudar o pêlo natural em fato artificial, ou saído da Selva a caminho do Paraíso, o homem actual, o homem que nós somos, neste mesmo instante, insatisfeito com a sua própria...

Cobiça

 "A nossa cidade não sucumbirá pelos decretos de Zeus nem pelo conselho dos deuses bemaventurados, pois Palas Ateneia estendeu sobre ela as suas mãos. São os próprios cidadãos que querem arruiná-la por causa da sua cobiça e da sua estupidez."- Sólon, in Afonso Botelho, Origem e Actualidade do Civismo , Lisboa, Terra Livre, 1979.

E uma sugestão filosófica

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  Lançado recentemente, daquele que é possivelmente o mais importante dos filósofos espanhóis do século XX. Uma breve introdução à filosofia e a algumas das suas temáticas.

Conhecimento

  “Assim, suponha-se que o leitor vê um celeiro à beira da estrada e acredita que é um celeiro. É perfeitamente justificável, dado que habitualmente consegue ver que está a olhar para um celeiro. Porém, sem o saber, o leitor está a passar por um reino de “celeiros de Potemkin”: fachadas falsas de celeiros construídos pelos estúdios de Hollywood. (Grigori Potemkin foi um ministro de Catarina, a Grande, da Rússia, e parece que a enganou com respeito às suas conquistas na Crimeia fazendo erigir fachadas falsas de aldeias quando ela fez uma visita, de modo que tudo parecia cor-de-rosa). Por acaso, o leitor olhou para um dos raros celeiros reais, de modo que, apesar de a sua crença estar justificada e ser verdadeira, não sabia realmente que estava a ver um celeiro”.-  Simon Blackburn, As Grandes Questões da Filosofia, Gradiva, 2018, p.52 .

Liberdade

  “Otto Dix (…) durante o seu serviço na frente, viu suficientes salvas de artilharia para reconhecer uma espécie de Gólgota no rescaldo dos ataques (…). Mas Dix (…) recusava-se a considerar que o sofrimento de Cristo tivesse servido algum propósito. Imaginar que servira qualquer fim era apegar-se aos valores de um escravo ‘Ser crucificado, conhecer o mais profundo abismo da vida’ era a sua própria recompensa. Quando Dix se alistou, em 1914, fê-lo porque queria conhecer os extremos da vida e da morte (…). Só na inebriação de experiências deste tipo é que um homem podia ser mais do que um homem: um Ubermensch [super-homem]. Ser livre era ser grande; e ser grande era ser terrível. Não fora a Bíblia a ensiná-lo a Dix” - Tom Holland, Domínio , Vogais, 2022, p.511-512.