Algumas notas sobre o legado greco-romano
“Melina Mercouri, a actriz deslumbrante que se converteu na
ministra da cultura mais famosa da Grécia, sabia como dirigir-se às audiências.
Num grande colóquio internacional, levantou-se e declarou:
-Perdoem-me (…) mas
antes devo pronunciar algumas palavras em grego.
Fez uma pausa enquanto os delegados, com ar conformado, se
recostavam nos assentos e, com uma lentidão brilhante, acrescentou:
- Democracia.
Política. Matemática. Teatro…
No Ocidente
contemporâneo, falar de cultura é falar grego.” (Goldhill).
É no mesmo sentido
que se pronuncia Jacqueline Russ quando nos diz que “A todo o momento, quando
lemos, vamos ao teatro ou utilizamos o vocabulário médico ou científico,
falamos grego, pensamos grego ou respiramos o ar dos séculos V e VI atenienses,
mas também dessa civilização helenística”, acrescentando ainda que “ a
civilização grega origina modelos culturais que manifestarão uma fabulosa
energia”.
Mas nem sequer
precisamos, para já, de ir ao campo da cultura. Encontramos traços da presença
grega no nosso dia a dia.
Recordo-me de uma
ocasião, no meu sétimo ano, em que o professor de História nos chamou a atenção
para as diferenças entre a estatuária egípcia e grega. Se na primeira existia
geometria (para simplificar as coisas), na segunda havia harmonia. Em bem
concebidos corpos. Se o pudor, a religiosidade, a moral ou outros elementos que
se queiram responsabilizar, fizeram com que representações posteriores de
heróis e deuses gregos acabassem por vestir o que antes se encontrava despido (
no caso masculino ) ou despir o que se encontrava vestido ( no caso feminino ),
o certo é que o culto do corpo e a exposição do mesmo reapareceram em força no
século XX. Ou XIX, se quisermos ser mais rigorosos e considerarmos o movimento olímpico
como expressão daquela tendência.
No século passado,
não só através do desporto – e por vezes de forma notável, como em Olympia -, mas também da cultura popular
e na nossa vida quotidiana, essa presença do corpo ressurgiu em força, como era
natural no mundo greco-romano. O cinema começou por nos oferecer as grandes
produções italianas e hollywoodescas dos anos cinquenta (antecipadas por épicos
como Cabíria, ainda no tempo do
cinema mudo) e entrando no século XXI pela mão de um Gladiador, um Tróia ou um
mais identitário 300. Correntemente,
a moda das séries televisivas também colocou nos radares Roma ou o mundo de
Homero.
Mas é também fora dos
ecrãs que a sombra da Antiguidade se projecta: vai-se ao ginásio cada vez com
maior frequência ou traz-se o ginásio para casa, se necessário. Ou, assim haja
possibilidades, contrata-se o treinador pessoal.
Claro que,
actualmente, a frequência aumentou. Como a democracia grega, de resto. Na
altura, a presença nos ginásios era exclusivamente masculina. E ia-se até lá
para não se ficar como as mulheres e melhorar a sua condição física e moral,
tendo por finalidade o exercício da boa cidadania, razões talvez diferentes das
actuais. Com Roma, deu-se uma mudança, e para escândalo de alguns, à data e
posteriormente, as mulheres passaram a ser vistas nos banhos públicos, locais
por excelência de socialização.
Outras diferenças
face ao mundo helénico são facilmente visíveis: nos nossos dias já ninguém se
exercita nu perante os outros. E o azeite não lubrifica os atletas. O retorno
da Antiguidade pode ser visível nalguns aspectos, não na totalidade.
Se dermos o salto
deste universo mais quotidiano para um, digamos assim, mais cultural, as
influências são também notórias. E em múltiplos aspectos, da religião à
política: “Uma noite, São Jerónimo (…) sonhou que era levado ao tribunal
celestial onde a figura sombria de Cristo, o Juiz, lhe pediu que se
identificasse. ‘Sou um cristão’, respondeu, humilde. ‘Mentes’, trovejou o Juiz.
‘És um ciceroniano e não um cristão’ (…).
São Jerónimo foi um
erudito espantoso que estudou a fundo as tradições clássicas da Grécia e Roma.
Ficou tão envergonhado – ou assim no-lo diz – por passar tanto tempo neste
género de estudos que a única penitência adequada era ser açoitado. Tentou com
desespero negar o amor que sentia pelos grandes escritores latinos – embora
cada página que São Jerónimo escreveu revele na verdade o quão profundamente os
amara e absorvera (…).
Esta relação
ambivalente com a cultura da Grécia e de Roma fez-se sentir nos primórdios do
cristianismo “(Goldhill).
Deriva daqui, também,
a necessidade de perceber o mundo clássico para entender o cristianismo e a
inutilidade de querer compreender este sem conhecer aquele, a crer na fórmula
de T.S. Eliot e citada por Goldhill.
Mas também a
Filosofia veio a impregnar a imagética cristã posterior e, por extensão, a
cultura ocidental. Sócrates é o exemplo do mártir pela verdade, paralelo aos
cristãos que escolheram aquela via. Em Diógenes, o Cínico, o homem que viveu
numa barrica e pediu a Alexandre para que não lhe tapasse o sol vemos toda uma
familiaridade com os ascetas, com os Padres do Deserto que se retiravam da
civilização e preferiam o silêncio dos desertos para a sua reflexão e encontro
com Deus – e por vezes com o Tentador.
No período da
filosofia helenística estóicos e neoplatónicos hão-de configurar-se como
referências para autores posteriores. Mas nada se compara, evidentemente, a
Platão, que em muito ajudou a configurar a filosofia cristã vindoura. E logo no
dealbar do novo mundo que acompanha a queda de Roma e a formação dos estados
posteriores havemos de encontrar em Santo Agostinho, em particular, alguns dos
dilemas atrás referidos a propósito de São Jerónimo. E em Boécio, o último dos
clássicos, há um cristão que encontrará consolo na donzela Filosofia, nos
momentos que antecedem a sua execução.
A história posterior
é conhecida. É a da expansão do cristianismo pela Europa e, com ele, do mundo
grego aparentemente extinto. Um mundo que levou mais tarde Erasmo a aprender a
língua a fim de consultar São Jerónimo no original, segundo nos diz mais uma
vez o já citado Goldhill. E, lá está, eis-nos chegados ao Renascimento, em
relação ao qual se diz ter redescoberto a Antiguidade clássica. Mas alguma vez
ela nos abandonara?
Bibliografia:
Goldhill, Sinom, Amor,
Sexo e Tragédia- a contemporaneidade do classicismo, Lisboa, Aletheia,
2006.
Russ, Jacqueline, A
Aventura do Pensamento Europeu – uma história das ideias ocidentais, Lisboa,
Terramar, 1997.
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