Breve esboço sobre a democracia em Portugal
No ano de 1820 deu-se a revolução liberal em Portugal. Até à
data o país vivera sob regime monárquico, não-constitucional. E, se durante a
Idade Média existiram as cortes, regularmente convocadas, nos séculos XVII e
XVIII as mesmas foram sendo progressivamente esquecidas. O sistema monárquico
tornou-se absolutista (com D.João V e D.José I).
Na sequência da
revolução liberal foi elaborada a Carta Constitucional e, posteriormente, uma
Constituição. O sistema passou a ser a monarquia constitucional, no qual o rei
já não possui o poder absoluto e se encontra condicionado pelas normas escritas
naquele que é, agora, o documento fundamental do país.
Progressivamente este
regime foi-se tornando mais sólido, mas a existência de uma constituição e da
separação de poderes não bastavam para fazer de Portugal uma democracia.
Criaram-se partidos, existiam eleições regulares, mas o número de eleitores era
muito reduzido em relação à população total do país. Além disso vivia-se num
sistema de rotatividade, ou seja, existiam dois grandes partidos que se
alternavam no poder. E as eleições eram determinadas, em parte, pela influência
dos caciques, os líderes locais que orientavam as votações nas vilas e cidades
onde exerciam influência.
Após um período de
conflitos e guerra civil, foi este sistema que vigorou em Portugal na segunda
metade do século XIX. O rei era agora um monarca constitucional, com os seus
poderes limitado, e tendo de contar com o parlamento e o governo. Era este que
lhe atribuía, por exemplo, o orçamento para a Casa Real.
Com a implantação da
república, em 1910, a situação não se alterou grandemente, pelo menos para
melhor. O partido republicano era agora o principal actor político.
Posteriormente, as divisões neste campo deram origem a diferentes partidos
sendo o principal o Democrático. Mas este, de Democrático, tinha sobretudo o
nome.
Tal como no passado,
as eleições continuaram a sofrer manipulações, o número de eleitores era
reduzido, as mulheres foram impedidas de votar, a violência nas ruas era
permanente. Por entre golpes, tentativas de golpes, assassinatos políticos e
muita instabilidade, chegou-se a 1917. Nesse ano deu-se a revolução chefiada
por Sidónio Pais, implantou-se a “República Nova” e o país entrou num sistema
presidencialista.
Mas foi por pouco
tempo. Em Dezembro de 1918 o presidente foi assassinado em Lisboa. A
instabilidade regressou, se é que alguma vez terminara. A situação económica e
social do país era dramática, vivendo-se as consequências da entrada do país na
Primeira Guerra Mundial. E só a partir da década de 1920 se começou a assistir
a alguma recuperação económica, embora a situação social e política continuasse
complexa.
Assim, a 28 de Maio
de 1926, deu-se uma nova revolução. Poderia ter sido apenas mais um movimento
militar, como tantos outros, mas desta vez a situação foi diferente. Este
movimento abriu caminho à ditadura militar, vivida até 1933. Neste ano foi
aprovada uma nova constituição e entrou-se naquele período que ficou conhecido
por Estado Novo e que se manteria até 1974.
O Estado Novo teve na
figura de Oliveira Salazar a sua principal referência. Durante a década de
trinta viveu um período de consolidação, embora sob a ameaça da oposição
republicana e das consequências da Guerra Civil Espanhola. Posteriormente, o
período da Segunda Guerra Mundial foi um momento de manobras diplomáticas,
tendentes a garantir a neutralidade portuguesa.
Após o final do
conflito, os sectores oposicionistas julgaram chegado o momento de derrubar o
regime, na sequência da vitória das nações democráticas (excepção feita à
URSS). Mas a realidade foi outra. Instalado o clima de Guerra Fria, os aliados
ocidentais encararam o Estado Novo como garante de estabilidade na região e o
mesmo começou a fazer parte de organizações internacionais- NATO, ONU e EFTA.
As décadas de 1950 e 1960 assistiriam a um forte crescimento económico e à
manutenção das restrições às liberdades políticas. O regime continuava a ser
autoritário.
A década de 1960
assistiu, ainda, à emergência do conflito no Ultramar. Primeiramente em Angola,
posteriormente em Moçambique e na Guiné-Bissau. E foi, em parte, na sequência
do arrastar do conflito que se deu o 25 de Abril de 1974.
Derrubado o regime do
Estado Novo, agora liderado por Marcello Caetano (desde 1968), o ano de 1975
ficou marcado pela instabilidade. No entanto, a situação do país foi-se
normalizando, progressivamente. O ano de 1976 veria a aprovação de uma nova
constituição, as eleições passaram a ser regulares, os partidos políticos
proliferaram.
A democracia foi-se
consolidando e, em 1986, Portugal aderiu à CEE (posteriormente UE). Parecia que
o país entrava, definitivamente, no caminho da modernidade. Os fundos europeus
transformaram a paisagem nacional, a economia sofreu uma internacionalização,
os principais centros de decisão deixaram de estar em território nacional.
Hoje, 51 anos após o
25 de Abril, o país enfrenta novos desafios (como é normal), num sistema
político democrático consolidado, mas em que convém não esquecer que o mesmo
não se limita a eleições regulares. A democracia implica muito mais do que
isso, desde a liberdade de expressão, ao acesso à informação, à participação no
espaço público. Algo que só pode ser realizado com a participação activa dos
cidadãos.
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