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A mostrar mensagens de abril, 2026

Filosofia moderna

 "Aquela filosofia que hoje se ensina nas escolas com a designação de 'filosofia moderna', caracteriza-a Hegel por 'abandonar totalmente o domínio da teologia filosofante' e constituir 'o ponto de partida daquilo a que os franceses chamam as ciências exactas'. O que lhe é essencial, o primado da vontade, recebe-o todavia a filosofia moderna da teologia escolástica. Por isso dizemos que só aparentemente ela representa uma ruptura com a teologia, filosofante ou não, e antes a prolonga dando-lhe, precisamente no abandono da expressão teológica e na construção das ciências exactas, as condições para um triunfo que, há quatro séculos indiscutido, hoje podemos ver ter sido, e estar sendo, ilusório.  Tal como é entendida escolarmente, a filosofia moderna teve o seu primeiro pensador em Descartes e o último em Hegel. ´Herói do pensamento' - chama Hegel a Descartes; e acrescenta: 'Jamais se poderá insistir bastante nem com suficiente amplitude expor a acção ...

Anatomia da melancolia

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  Eis uma interessante reedição filosófica. E uma das razões desse interesse tem a ver com a nossa filosofia, a chamada filosofia portuguesa. No século XV o rei D. Duarte, no seu Leal Conselheiro, também analisou o problema do que então se chamava o "humor merencórico", procurando razões e saídas para aquilo a que hoje chamaríamos depressão (e de que ele próprio era vítima). Fazia-o dentro de um quadro de racionalidade, chamemos-lhe assim. Dois séculos mais tarde Burton ainda coloca a hipótese diabólica como causadora da melancolia. Um exemplo apenas para demonstrar que, ao contrário da opinião de alguns, há muito que aprender com a chamada "filosofia portuguesa" cujas origens podem remontar a D. Duarte e até antes.

Kant

 "O ponto de partida do pensamento kantiano é, deum lado, um fundo de crenças cristãs e mais especialmente pietistas, a fé no dever, o culto da intenção moral, a convicção da superioridade da prática sobre a dogmática; do outro lado, um sentido muito vivo e muito puro da ciência, a resolução de não se regular, no que concerne ao conhecimento da natureza, senão sobre a evidência da experiência e dos raciocínios matemáticos. Desde então, é essencialmente a questão das relações entre a ciência e a religião que vai agitar-se no espírito de Kant, e isso, logo que religião e ciência se forem desenvolvendo independentemente uma da outra, cada qual segundo o método que lhe é próprio."- Émile Boutroux, Kant (trad. de Álvaro Ribeiro), Lisboa, Editorial Inquérito, s/d, pp.25-26.

A arte da filosofia

 "A filosofia é uma arte, que dizer, uma das actividades humanas que se propõem inserir valores na sociedade. Definiu Aristóteles a arte como 'habilidade inteligente dirigida á produção de uma obra', pelo que a distingue do jogo inútil ou do trabalho reprodutor, e como arte foi considerada a filosofia depois do trívio e do quadrívio. A filosofia é uma arte de palavra, embora o discurso filosofal obedeça a exigências superiores ás da gramática, da retórica e da dialéctica."- Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais, Lisboa, Guimarães Editores, 1961, p.83.

Da Influência das Paixões

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 Até ao século XX a filosofia foi uma actividade maioritariamente masculina, apesar de terem existido várias excepções. Aqui está uma delas, Madame de Stael, uma referência do movimento pré-romântico cujo título que aqui se apresenta sairá brevemente a público. É a sugestão do dia.

Sobre a lei natural

 "Vamos agora ocupar-nos da ciência das obras. Ao tratá-la encontramos quatro leis.  A primeira é chamada 'lei natural', que mais não é do que a luz implantada em nós por Deus pela qual sabemos o que devemos fazer e evitar. Esta lei e esta luz foram dadas por Deus ao homem na criação. Muitos, que não observam esta lei. julgam ser desculpados por ignorância. Contra esses diz o profeta: 'Muitos dizem 'quem nos fará ver o bem?' (Sl 4, 7), como se ignorassem o que deveriam fazer. Mas responde logo em seguida 'Senhor, levanta sobre nós a luz da tua face'. Esta luz está no intelecto e por ela são definidas as coisas que devemos fazer. Ninguém, na verdade, ignora que aquilo que não quer que lhe façam, não o deve fazer aos outros e outros princípios semelhantes."- São Tomás de Aquino, Catecismo (tradução de Duarte da Cunha e João César das Neves), Cascais, Lucerna, 2022, pp.141-142.

Filosofia e misticismo

 "A filosofia é um enorme apetite de transparência e uma resoluta vontade de meio-dia. O seu propósito radical é trazer para a superfície, declarar, descobrir o oculto ou velado - na Grécia a filosofia começou por chamar-se alétheia , que significa desocultação, revelação ou desvelação; em suma, manifestação. E manifestar não é senão falar, logos . Se o misticismo é calar, filosofar é dizer: descobrir na grande nudez e transparência da palavra o ser das coisas, dizer o ser - ontologia . Frente ao misticismo, a filosofia gostaria de ser o segredo aos gritos."- José Ortega y Gasset, O Que é a Filosofia? (trad. de José Bento), Lisboa, Cotovia, 1999.

A prática filosófica

 "Porquê no mundo dos homens existe esta estranha fauna dos filósofos? Porquê entre os pensamentos dos homens há o que chamamos 'filosofias'? Como se vê, o tema não é popular, mas puramente técnico (...). É evidente que eu hei-de procurar ser entendido por todos, porque (...) penso que a claridade é a gentileza do filósofo (...). Em filosofia não costuma ser a via recta o caminho mais curto. Os grandes temas filosóficos só se deixam conquistar quando são tratados como os Hebreus fizeram com Jericó - aproximando-nos deles numa linha curva, em círculos concêntricos cada vez mais estreitos e insinuantes."- José Ortega y Gasset, O Que é a Filosofia? (trad. de José Bento), Lisboa, Cotovia, 1999, p.13-14.

Sobre o sentido da História (e da Filosofia)

 "Mas terá sentido falar de ´ventos da História'? A expressão corresponde sem dúvida a uma realidade, ou, mais rigorosamente, a um facto de ordem cultural. Há épocas em que os homens sentem que uma força tende a arrastá-los colectivamente, uma força com a qual não parece possível dialogar mas se apresenta imperativa e parece sentenciar - ou vens comigo ou morres! Mas esse facto psicológico terá fundamento fora do plano subjectivo? Sabe-se como as filosofias de raiz hegeliana supõem a existência daquilo a que Spengler chamou 'almas das culturas'. E Leo Frobenius dirá: 'A cultura não é criada pelo homem. É o homem que é criado pela cultura'. Quer dizer, segundo esta concepção, não é o homem que faz a História: a História é que faz o homem. Sem poder entrar aqui na análise crítica desta teoria, direi simplesmente que a considero (ao menos na sua forma absoluta) inaceitável a uma mentalidade cristã.". - Henrique Barrilaro Ruas, Portugal no Mundo de Hoje, Coimb...

Do Sentimento Trágico da Vida

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 Um dos grandes textos da filosofia ibérica, escrito por um amigo de Portugal, agora reeditado pela Bookbuilders. Vale a pena.

Sobre a origem dos males

 "Voltaire, parecendo sempre acreditar em Deus, nunca acreditou verdadeiramente senão no diabo, visto que o seu suposto Deus não passa de um ser malfazejo, que, segundo ele, apenas sente prazer em prejudicar. O absurdo dessa doutrina, que salta à vista, torna-se particularmente revoltante num homem cumulado de bens de toda a espécie, que, no seio da felicidade, procura desesperar os seus semelhantes com a imagem horrível e cruel de todas as calamidades de que ele está isento. Mais autorizado do que ele para enumerar e avaliar os males da vida humana, fiz o seu exame equitativo e provei-lhe que, de todos esses males, não havia um de que a Providência não estivesse ilibada, e que não tivesse a sua origem nos abusos que o homem fez das suas faculdades, mais do que na sua própria natureza.". Rousseau, As Confissões- segunda parte (trad. de Manuel de Freitas), Silveira, E-Primatur, 2025, p.190-191.

Arte

 "Toda a arte é exorcismo."- Otto Dix.

Passam hoje 400 anos sobre a morte de Francis Bacon

 "Os homens temem a morte como as crianças temem caminhar na escuridão, e como este natural receio das crianças é acrescido com fábulas, assim também o outro. Certamente, a contemplação da morte, como soldo do pecado e passagem para outro mundo, é atitude piedosa e religiosa, mas temer a morte como um tributo devido à natureza, isso é fraqueza."- Francisco Bacon, Ensaios (trad. de Álvaro Ribeiro), Lisboa, Guimarães Editores, 1992, p.35.

Fins últimos

 "O fim último pode ser considerado de duas maneiras: uma, referindo-se ao que lhe é essencial, e a outra, àquilo em que esse fim deve ser encontrado. No que diz respeito à noção abstracta de fim último, todos concordam em desejá-lo, porque todos desejam atingir a sua própria perfeição e esta é a essência do fim último. Mas, no que respeita à realidade em que o fim último se encontra, nem todos os homens estão de acordo, pois uns desejam as riquezas como bem perfeito, outros os prazeres, e outros ainda uma séria de outras coisas."- São Tomás de Aquino, Summa Theologica , I-II, q.1, a.7, in c, in Super Sophia- Filosofia Medieval.

progresso científico

 "Todo o progresso científico é bem-vindo para aqueles que nele vêem utilidade e normalmente deplorado por aqueles que a não vêem. A História não regista os protestos que rodearam a invenção da roda. mas certamente regista os protestos que rodearam a invenção dos caminhos-de-ferro. Para o grande crítico e filósofo social John Ruskin, os caminho-de-ferro foram um assalto impiedoso á tranquilidade rural; destruíram o sentido de lugar, desenraizaram comunidades estabelecidas, invadiram o campo com fealdade coberta de aço e expansão urbana, Puseram-nos a todos em movimento, quando o verdadeiro sentido da vida humana é ficarmos calmamente onde estamos. Foram, em suma, o fim da civilização como Ruskin a conhecia."- Roger Scruton, As Vantagens do Pessimismo (trad. de José António Freitas e Silva), Lisboa, Quetzal, 2011, p.15.

Música

 "É-me impossível dizer no meu livro uma palavra a respeito de tudo o que a música significou na minha vida. Como posso então esperar ser compreendido?"- Wittgenstein.

Hoje não há postal

 Ia colocar um sobre a nova biografia de Espinosa, mas reparei que já o tinha feito no mês passado. Amanhã continuamos.

Começa Abril (e porque isto também pode ser filosofia)

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