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A mostrar mensagens de janeiro, 2026

Medo

 "O medo é a mais antiga e a mais poderosa das emoções humanas, e o tipo de medo mais antigo e mais poderoso é o medo do desconhecido. poucos psicólogos questionarão estes factos, e a aceitação desta verdade deve fixar para sempre a genuinidade e o valor do conto fantástico de horror como forma literária."- H.P. Lovecraft, O Terror Sobrenatural na Literatura (trad. Ana Magalhães/Daniel Seabra Lopes), Lisboa, Vega, 2003.

A Guerra dos Metais Raros

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  Na disciplina de Ciência Política, as aprendizagens essenciais não pressupõem noções de geopolítica. Mas, numa disciplina como a referida, é impossível passar à margem de certos acontecimentos que se vão sucedendo um pouco por todo o mundo.  Uma das questões mais prementes dos nossos dias diz respeito, precisamente, aos metais raros e às terras raras, elementos indispensáveis à actual transição energética. Todos os dias, nos últimos tempos, temos recebido alertas sobre a Gronelância, e um dos elementos que se coloca em jogo naquele cenário é precisamente este, o das terras raras. Portanto, como um estudante de Ciência Política deve estar informado sobre o que se vai passando em seu redor, aqui fica esta sugestão. A edição é do ano passado, traduzida da edição francesa revista em 2023. O autor é um jornalista que percorreu uma série de países para recolher o material que serviu de suporte a esta investigação. O resultado é uma obra muito esclarecedora sobre o que já aí está e...

Argumento do desígnio

  “O novo argumento do desígnio surgiu durante o século XX, alimentado por descobertas científicas e teorias respeitantes tanto á origem do nosso universo como às condições que nele tiveram de prevalecer desde o início para que o tipo de vida que conhecemos tivesse alguma hipótese sequer de ocorrer no universo à medida que este se desenvolvia. Ao contrário dos defensores do argumento que Darwin e Hume criticaram, os defensores do novo argumento não começam pela existência de seres vivos (…) procurando uma explicação para o facto de serem sistemas teleológicos tão intrincados (…). Ao invés, os defensores do novo argumento do desígnio perguntam que condições tem de haver no universo para que seja sequer possível a existência de seres vivos.” - William L. Rowe, Introdução à Filosofia da Religião , Verbo, 2011. P.102.

Verdades

  "As pessoas evitam as verdades inconvenientes e constroem muros que as tiram do alcance da vista. Aristóteles disse-nos que todos os seres humanos desejam conhecer; mas esqueceu-se de observar que só o fazem estando de antemão tranquilizados com a ideia de que o conhecimento será tranquilizador"  - Roger Scruton, Como Ser Um Conservador, pp.122-123, Lisboa, Guerra e Paz, 2018.

Descartes na sua época

  A época em que Descartes vive é marcada, filosoficamente, pelo cepticismo. Nomes como Montaigne, Francisco Sanches, Pierre Charron, entre outros, popularizaram esta escola de pensamento. As razões do seu sucesso são múltiplas.   Na sequência do Renascimento e da redescoberta e releitura de textos clássicos, os de antigos filósofos gregos são naturalmente estudados. Entre eles encontram-se os dos cépticos. A sua filosofia parecia especialmente capaz de aplicação à época moderna, sobretudo em virtude da recomposição que se fazia sentir na Europa. Essa recomposição tinha, essencialmente, três vertentes.   Em primeiro lugar, no campo religioso, viviam-se os ecos da Reforma protestante. Até ao século XVI, apesar da divisão entre ortodoxia e catolicismo, a maior parte do continente permanecia fiel ao segundo. Com a Reforma ocorre o estilhaçamento da unidade religiosa, embora as dissidências não fossem algo de absolutamente novo. Antes já houvera contestação à unidade cató...

Teria Heródoto razão?

  "A ideia de que a ética é apenas uma questão de convenções sociais atraiu sempre as pessoas educadas. Culturas diferentes têm códigos morais diferentes, diz-se e pensar que há um padrão universal que se aplica em todas as épocas e lugares não passa de uma ingenuidade. É fácil encontrar exemplos. Nos países islâmicos, os homens podem ter mais do que uma mulher. Na Europa medieval, pensava-se que emprestar dinheiro a juros era pecado. Os povos nativos do norte da Gronelândia por vezes abandonavam as pessoas velhas, deixando-as morrer ao frio. Ao pensar em exemplos como estes, os antropólogos concordam há muito com a afirmação de Heródoto: ‘O costume é o rei de todos nós’.”    James Rachels, Problemas da Filosofia , Gradiva, 2009, pp.237

David Hume em poucas linhas

  “A filosofia de Hume, verdadeira ou falsa, é a falência da racionalidade do século XVIII. Como Locke, ele intenta ser sensorial e empírico, nada aceitando por confiança e procurando obter todo o conhecimento por experiência e observação (...) Chega à conclusão desastrosa de que a experiência e a observação nada ensinam. Não existe crença racional.”- Bertrand Russell, História da Filosofia Ocidental, Lisboa, Relógio d’Água, 2017, p.550.  

O caminho para a verdade (mais um pouco de Descartes)

  “Mas agora que resolvi dedicar-me apenas à descoberta da verdade, pensei que era necessário (...) rejeitar como completamente falso tudo aquilo que pudesse suscitar a menor dúvida, para ver se depois disso algo restaria nas minhas opiniões que fosse absolutamente indubitável.   Assim, porque os nossos sentidos nos enganam algumas vezes, decidi supor que nos enganam sempre. E porque há pessoas que se enganam ao raciocinar, até nos aspectos mais simples da geometria, fazendo raciocínios incorrectos, rejeitei como falsas, visto estar sujeito a enganar-me como qualquer outra pessoa, todas as razões que até então me pareceram aceitáveis. Por fim, considerando que os pensamentos que temos quando estamos acordados nos podem ocorrer também quando dormimos, sem que, neste caso, qualquer deles seja verdadeiro, resolvi supor que tudo o que até então tinha tido acolhimento no meu pensamento não era mais verdadeiro do que as ilusões dos meus sonhos. Mas, logo a seguir, notei que, enqua...

Descartes e a ciência moderna

  “Antes de mais, Descartes não foi somente um filósofo; foi também um grande matemático e um dos fundadores da física moderna. Embora seja hoje prática comum distinguir estas áreas, as coisas não eram assim na época de Descartes, nem essa divisão teria encorajado o desenvolvimento de nenhuma delas. Descartes pertenceu àquele mundo pós-Reforma no qual, à medida que a autoridade da Igreja e das Escrituras recuava, assim avançavam a especulação e a experiência científicas. Embora quase todos os filósofos ou cientistas da época acreditassem sinceramente nos dogmas da religião, trabalhavam independentemente dos constrangimentos intelectuais impostos por estes últimos, confiando que os seus esforços seriam suficientes para estabelecer a verdade sobre questões que tinham ficado durante séculos sem resposta. Sobre a revolução científica da qual Descartes fez parte foi dito o seguinte: Visto que derrubou a autoridade da ciência não apenas da Idade Média, mas também do mundo antigo – pois l...

Acção

  Falar do conceito de acção implica falar do conceito de acontecimento. Antes de mais, podemos dizer que a acção é um movimento intencional realizado por um sujeito de forma consciente. Utilizamos o termo “movimento” num sentido amplo. Ocorrem aqui alguns elementos fundamentais para que algo (acontecimento) possa ser considerado como acção. Desde logo, esta não é simplesmente aquilo que acontece. Há muitas coisas que sucedem e que, simplesmente, não são acções. Chover, por exemplo, é um acontecimento mas não uma acção. Não implica a presença de um sujeito responsável pelo ocorrido. Mas a simples presença daquele também não é condição suficiente para que possamos falar de acção. O indivíduo que, a sonhar, derruba o candeeiro da mesinha de cabeceira não executa uma acção. Trata-se, novamente, de um acontecimento. Falta aqui a consciência. Mas falta, sobretudo, a intencionalidade. O sujeito que, consciente e deliberadamente, derruba o candeeiro, esse sim executa uma acção.   I...

Ao Doutor António Ferreira

 Sendo este um espaço dedicado à filosofia, a poesia também não lhe será alheia, sobretudo se tivermos em conta que a mesma exprime, frequentemente, inquietações e tópicos filosóficos. Sendo este o postal nº50 aqui fica um soneto de um dos grandes cultores da poesia portuguesa, Diogo Bernardes, hoje infelizmente esquecido. Ferreira, eu vi as claras e fermosas Águas do teu Mondego irem chorando As lembranças do tempo que cantando Andavas, nas suas praias saudosas. Não vi os brancos lírios nem as rosas Vermelhas que mostrava o campo, quando A serra docemente ias chamando Com vozes namoradas, mas queixosas. Vi secos os senceiros que já tantas Vezes queixar t'ouviram, vi o dia Escuro, a relva triste, em toda parte. Se nas águas, no sol, flores e plantas, Vi tanta saudade, que faria Deixando lá de mim a milhor parte? Diogo Bernardes, Rimas Várias Flores do Lima , Porto, Caixotim, pp.107-108.  

A modernidade: um projecto inacabado

  Em 1980, ao receber o prémio Adorno, Jurgen Habermas proferiu um discurso com este título e que, mais tarde, haveria de dar origem a um dos textos mais conhecidos da produção bibliográfica relativa ao assunto em epígrafe. Tratou-se da obra O Discurso Filosófico da Modernidade. A tese fundamental defende que as promessas do iluminismo ficaram por cumprir, pelo que podemos concluir que algumas das categorias fundamentais da Modernidade também estarão incluídas nesse incumprimento.   Retomando as teses de Adorno, que situa o início da Modernidade por alturas de 1850, Habermas presenteia-nos com uma reflexão acerca da mesma começando por um pressuposto interessante, o de que o sentimento do moderno não é algo de tão tardio. O termo “moderno” terá surgido no século V, contrapondo a nova realidade cristã em contraposição a uma ordem pagã progressivamente desvanecida. Este sentimento renovar-se-ia em diferentes períodos da história europeia, “sempre que (…) se gerou a consciência...

Há que tirar Thomas Hobbes da estante

 E reler o que ele tem para nos dizer, face ao sucedido nas últimas semanas no plano internacional. Num momento em que se fala muito em direito internacional, talvez seja aconselhável relembrar que esse direito assenta, frequentemente, na força. Nada de novo, no fundo. Basta recordarmo-nos do mapa cor-de-rosa. Os actores vão mudando, a força permanece essencial. A paz perpétua de Kant é uma ilusão cultivada por optimistas demasiado crentes no mito do progresso e da perfectibilidade.  Há duas edições do Leviatã em Portugal, acessíveis facilmente. A da IN-CM, mais antiga; a da Book Builders (E-Primatur), mais recente.

Breve nota sobre mitologia da ciência

  Uma das ideias feitas acerca do trabalho científico é aquela que nos mostra o cientista como um ser solitário, isolado no seu laboratório, num trabalho febril e muitas vezes afastado da sociedade – a qual não o compreende. Essa imagem faz parte da mitologia da ciência, uma mitologia desenvolvida ao longo dos séculos, mas sobretudo consolidada no século XIX, com a reacção romântica ao avanço científico.   Clarifiquemos: a ciência progredira desde a Antiguidade, e a Idade Média não foi aquela época de estagnação que tantas vezes se pensa – também aí existiu inovação. Mas foi com maior vigor no século XIX (apesar dos avanços dos séculos anteriores) que se deu um avanço científico e tecnológico significativo. Com ele, ao lado de um aumento do bem-estar, houve igualmente um aumento dos medos ligados a um poder que o homem parecia, por vezes, incapaz de conhecer e controlar. O mito de Frankenstein cristaliza essa atitude romântica face à ciência e à sua linguagem. Apesar do dr. ...

Nick Cave

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 E já que se fala de arte, uma referência a Nick Cave e a um álbum que, a caminho dos 30 anos, continua a ser um exemplo de como a beleza pode ser alcançada. The Boatman´s Call foi lançado em 1997 e é um dos melhores trabalhos da música rock (vamos considerá-lo assim) das últimas três décadas. Fica o tema de abertura.

A arte é útil?

 "A utilidade é, sobretudo, para quem a faz. Quer seja por motivos terapêuticos ou como forma de intervenção social, ou por uma simples necessidade de expressão, tudo isso contribui para que haja essa sensação de que estamos a extravasar a nossa própria existência, o nosso próprio corpo."- Edgar Pêra, Não Sou Nada - um filme pós-pessoano de Edgar Pêra , coord. Jerónimo Pizarro, Lisboa, Tinta-da-China, 2024, pp.77-78. Uma boa introdução à obra de Edgar Pêra, com Fernando Pessoa e observações sobre a arte em pano de fundo.

Estado de guerra

 "Daquela lei de natureza pela qual somos obrigados a transferir aos outros aqueles direitos que, ao serem conservados, impedem a paz da humanidade, segue-se uma terceira: Que os homens cumpram os pactos que celebrarem . Sem esta lei os pactos seriam vãos, e não passariam de palavras vazias; como o direito de todos os homens a todas as coisas continuaria em vigor, permaneceríamos na condição de guerra."- Thomas Hobbes, Leviatã (trad. de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva), Lisboa, FCG, 1999, p.125.

Um ofício perigoso

 É assim que se intitula um livro, saído já há alguns anos, no qual somos convidados a reflectir acerca da perigosidade inerente ao exercício de pensar. Claro que não é assim tão simples, mas estou a sintetizar ao máximo, até porque já li o livro há muitos anos.  E, aparentemente, o título tem razão de ser. Se olharmos para a história da filosofia encontramos diversos exemplos de filósofos que foram perseguidos e confrontados de forma mais ou menos violenta devido às suas ideias. Sócrates, Aristóteles, Anaxágoras, Boécio, Bruno, Descartes, Galileu, entre outros, foram alguns dos que se viram mortos, perseguidos, censurados, em virtude daquilo que parece ser a essência da actividade filosófica, o exercício crítico.  Curiosamente é raro falar-se na outra face da moeda, quer dizer, de quando são os filósofos os perseguidores, de quando são eles que se arvoram em censores e se colocam ao lado de tiranos e ditadores. E, aí, a história também começa cedo. Platão viaja para a Si...

Odisseia (porque ainda vale a pena ler os clássicos)

 "Nos nossos dias é ainda extremamente agradável ler a Odisseia . Este poema que deve ser posterior à Ilíada conta-nos a errância de Ulisses durante dez anos, desde a sua partida de Tróia até à sua chegada a Ítaca.  A Odisseia é desta forma um poema de regresso e poderemos mesmo acrescentar que nele descortinamos sem qualquer dificuldade um duplo regresso: é não só o regresso do herói à terra natal, mas também o regresso do esposo para junto da esposa.  O poema está repleto de aventuras maravilhosas que ainda hoje nos encantam, muito provavelmente,  por constituirem uma das fontes de onde brotou o imaginário ocidental. O leitor da odisseia, com uma certa facilidade, poderá considerar a estadia de Ulisses no País dos Feácios como o ponto central do poema destinado a fazer a ligação entre as viagens de Telémaco e a chegada a Ítaca, onde o herói terá de defrontar os pretendentes."- Álvaro José dos Penedos, Ensaios- história da filosofia , Porto, Rés, s/d, p.29.

Interior

 "Não te vires para fora, vira-te para ti mesmo. No homem interior habita a verdade."- Santo Agostinho.

E, já agora, uma reflexão para começar o ano

 "A inteligência do indivíduo é medida pela quantidade de incerteza que ele é capaz de suportar."- Immanuel Kant, Super Interessante. Filosofia: origens do pensamento clássico, s/d, p.195.