Um ofício perigoso

 É assim que se intitula um livro, saído já há alguns anos, no qual somos convidados a reflectir acerca da perigosidade inerente ao exercício de pensar. Claro que não é assim tão simples, mas estou a sintetizar ao máximo, até porque já li o livro há muitos anos.

 E, aparentemente, o título tem razão de ser. Se olharmos para a história da filosofia encontramos diversos exemplos de filósofos que foram perseguidos e confrontados de forma mais ou menos violenta devido às suas ideias. Sócrates, Aristóteles, Anaxágoras, Boécio, Bruno, Descartes, Galileu, entre outros, foram alguns dos que se viram mortos, perseguidos, censurados, em virtude daquilo que parece ser a essência da actividade filosófica, o exercício crítico.

 Curiosamente é raro falar-se na outra face da moeda, quer dizer, de quando são os filósofos os perseguidores, de quando são eles que se arvoram em censores e se colocam ao lado de tiranos e ditadores. E, aí, a história também começa cedo. Platão viaja para a Sicília a fim de convencer o tirano Dionísio a colocar em prática as suas ideias de governo - e acaba por ter de fugir; Séneca privou intimamente com o tirano Nero; Voltaire correspondeu-se com monarcas absolutos (Catarina da Rússia e Frederico da Prússia); Foucault apoiou a revolução islâmica no Irão; Sartre apoiou o regime maoísta chinês. Etc.

 Claro que se poderá argumentar, dizendo que tais filósofos pensaram (ingenuamente?) ser capazes de influir positivamente na arena política, mas nesse caso não se terão levado demasiado a sério? terão sido, verdadeiramente, filósofos, partilhando e afirmando o tal sentido crítico?

 Filosofar pode ser, então, um ofício perigoso. Mas não só para os filósofos. Também para aqueles que sofrem as consequências das suas ideias. E isso é algo que se esquece com frequência. 

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