Ao Doutor António Ferreira
Sendo este um espaço dedicado à filosofia, a poesia também não lhe será alheia, sobretudo se tivermos em conta que a mesma exprime, frequentemente, inquietações e tópicos filosóficos. Sendo este o postal nº50 aqui fica um soneto de um dos grandes cultores da poesia portuguesa, Diogo Bernardes, hoje infelizmente esquecido.
Ferreira, eu vi as claras e fermosas
Águas do teu Mondego irem chorando
As lembranças do tempo que cantando
Andavas, nas suas praias saudosas.
Não vi os brancos lírios nem as rosas
Vermelhas que mostrava o campo, quando
A serra docemente ias chamando
Com vozes namoradas, mas queixosas.
Vi secos os senceiros que já tantas
Vezes queixar t'ouviram, vi o dia
Escuro, a relva triste, em toda parte.
Se nas águas, no sol, flores e plantas,
Vi tanta saudade, que faria
Deixando lá de mim a milhor parte?
Diogo Bernardes, Rimas Várias Flores do Lima, Porto, Caixotim, pp.107-108.
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