Breve nota sobre mitologia da ciência
Uma das ideias feitas acerca do trabalho científico é aquela
que nos mostra o cientista como um ser solitário, isolado no seu laboratório,
num trabalho febril e muitas vezes afastado da sociedade – a qual não o
compreende. Essa imagem faz parte da mitologia da ciência, uma mitologia
desenvolvida ao longo dos séculos, mas sobretudo consolidada no século XIX, com
a reacção romântica ao avanço científico.
Clarifiquemos: a
ciência progredira desde a Antiguidade, e a Idade Média não foi aquela época de
estagnação que tantas vezes se pensa – também aí existiu inovação. Mas foi com
maior vigor no século XIX (apesar dos avanços dos séculos anteriores) que se
deu um avanço científico e tecnológico significativo. Com ele, ao lado de um
aumento do bem-estar, houve igualmente um aumento dos medos ligados a um poder
que o homem parecia, por vezes, incapaz de conhecer e controlar. O mito de
Frankenstein cristaliza essa atitude romântica face à ciência e à sua
linguagem. Apesar do dr. Frankenstein ser tudo aquilo que um cientista não é e
da sua criatura ser uma utopia impensável, a imagem do investigador solitário
fez escola e a obra ganhou um lugar no imaginário popular. Tínhamos ali o
retrato dessa ideia, segundo a qual o homem não está preparado para controlar
certos conhecimentos, ideia sustentada igualmente por filósofos, entre os quais
se destacou a figura de Nietzsche.
Esta imagem, apesar
de falsa, não esmoreceu. A literatura do século XX tratou de lhe dar
continuidade. H.P. Lovecraft, é apenas um da que a reproduz, na sua novela Herbert West, originalmente publicada em
folhetins. Outros autores (Robert Matheson) e realizadores trataram de manter
vivo o mito, um dos mais resistentes do universo científico (ou
pseudo-científico). A realidade, porém, não pode andar mais distante: longe da
criatura solitária visualizada no ecrã ou lida no papel, o cientista é alguém
que vive a sociedade, que trabalha e discute entre pares, que necessita do
contributo de uma equipa para conseguir chegar a conclusões. Hoje, sobretudo,
não há trabalho científico isolado, mas apenas trabalho de conjunto, de grupos
mais ou menos extensos, que sujeitam aos seus pares as descobertas a fim de que
sejam avaliadas por quem sabe do ofício. Esta, com outras, é uma das
características que distingue a ciência dessa imitação grotesca que dá pelo
nome de pseudo-ciência.
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