A modernidade: um projecto inacabado
Em 1980, ao receber o prémio Adorno, Jurgen Habermas
proferiu um discurso com este título e que, mais tarde, haveria de dar origem a
um dos textos mais conhecidos da produção bibliográfica relativa ao assunto em
epígrafe. Tratou-se da obra O Discurso Filosófico da Modernidade. A tese
fundamental defende que as promessas do iluminismo ficaram por cumprir, pelo
que podemos concluir que algumas das categorias fundamentais da Modernidade
também estarão incluídas nesse incumprimento.
Retomando as teses de
Adorno, que situa o início da Modernidade por alturas de 1850, Habermas
presenteia-nos com uma reflexão acerca da mesma começando por um pressuposto
interessante, o de que o sentimento do moderno não é algo de tão tardio. O
termo “moderno” terá surgido no século V, contrapondo a nova realidade cristã
em contraposição a uma ordem pagã progressivamente desvanecida. Este sentimento
renovar-se-ia em diferentes períodos da história europeia, “sempre que (…) se
gerou a consciência de uma nova época a partir de um relacionamento renovado
com a Antiguidade” (Habermas, 2017;38). Esta revivescência encontraria um
momento de ruptura com o advento do iluminismo pois só com os seus “ideais
perfeccionistas (…) e com a sua concepção, inspirada pela ciência moderna, de
um progresso ilimitado do conhecimento e de um avanço rumo ao social e
moralmente melhor é que a pouco e pouco o olhar se vai desprendendo do fascínio
que as obras clássicas do mundo antigo exerciam o espírito de cada uma das modernidades”. (Habermas,
2017; 38-39).
O século XIX
representará, assim, uma libertação em certa medida do espírito clássico e uma
afirmação de um espírito novo, já não entendido como uma reapropriação ou
renovação do Antigo, mas como um momento efectivamente novo que não procura a
legitimação na autoridade do passado mas numa “autenticidade de uma actualidade
passada”. (Habermas, 2017; 39).
Este estado de
espírito assume, segundo Habermas, expressão em Baudelaire e na sua teoria da
arte influenciada por Edgar Allan Poe, atingindo o auge no dadaísmo e no
surrealismo. Para Habermas, estamos perante uma “disposição caracterizável por
atitudes construídas à volta do foco de uma consciência de época transformada”,
a qual se expressa “na metáfora espacial da força avançada, de uma avantgarde
(…) que se lança sobre território inimigo, que se expõe aos riscos de recontros
súbitos e chocantes, que conquista um futuro ainda não ocupado” (Habermas,
2017; 40-41). Esta nova consciência de que fala Habermas introduz-se também na
filosofia, pela mão de Bergson, e traduz também a revalorização daquilo que é
fugaz e transitório bem como a “celebração do dinamismo” que encontramos desde
logo em outros campos, como o futurista. Tudo isso a culminar numa “nostalgia
da verdadeira presença”, segundo Octavio Paz, citado por Habermas.
Em termos gerais, “o
projecto da Modernidade, formulado no século XVIII pelos filósofos da
Aufklarung, consiste em desenvolver, sem vacilações, as ciências objectivantes,
os fundamentos universalistas da moral do direito e a arte autónoma nos seus
respectivos sentidos intrínsecos” (Habermas, 2017;53). É o tempo da crença no
progresso e na capacidade de aperfeiçoamento contínuo da humanidade, mais tarde
retomado no projecto marxista. Deslumbrados com as capacidades da ciência e da
técnica, os iluministas e seus sucessores crêem na possibilidade de
regeneração, mas esta atitude de optimismo sofrerá abalos profundos nos seus
alicerces quando entramos no século XX, embora anteriormente o esboço da
descrença já se tenha manifestado.
A existência de
campos de concentração na guerra anglo-boer, as primeiras incursões aéreas
durante a invasão italiana da Tripolitânia, os conflitos balcânicos e,
finalmente, a destruição maciça operada durante o conflito de 1914-1918 levarão
á cena o lado destrutivo da técnica anteriormente encarada na sua vertente
criadora e colocarão em causa a racionalidade que se supunha património
universal. Posteriormente, a ambição kantiana de uma paz perpétua parecerá
encarnar nos desígnios da Sociedade das Nações, mas também esta se revelará um
fracasso.
O projecto iluminista
parecerá, assim, definitivamente colocado em causa. Com ele, é também a
Modernidade que sofre um abalo, pelo menos em algumas das suas categorias
determinantes.
Bibliografia:
Habermas, Jurgen, A Modernidade: um projecto inacabado,
Lisboa, Nova Vega, 2ª edição, 2017.
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