Um ofício perigoso
É assim que se intitula um livro,
saído já há alguns anos (edição portuguesa da já extinta Teorema e autoria de
Luciano Canfora), no qual somos convidados a reflectir acerca da perigosidade
inerente ao exercício do pensar na antiga Grécia. Claro que não é assim tão
simples, mas estou a sintetizar ao máximo.
E, aparentemente, o título
tem razão de ser. Se olharmos para a história da filosofia encontramos diversos
exemplos de filósofos que foram perseguidos e confrontados de forma mais ou
menos violenta devido às suas ideias. Sócrates, Aristóteles, Anaxágoras,
Boécio, Bruno, Descartes, Galileu, entre outros, foram alguns dos que se viram
mortos, perseguidos, censurados, em virtude daquilo que parece ser a essência
da actividade filosófica, o exercício crítico. De resto, os livros, manuais de
filosofia e afins costumam insistir nessa ideia e o filósofo surge,
frequentemente, como alguém que rema contra a corrente, como alguém que caminha
deslocado da multidão.
Curiosamente é raro falar-se
na outra face da moeda, quer dizer, de quando são os filósofos os
perseguidores, de quando são eles que se arvoram em censores e se colocam ao
lado de tiranos e ditadores. E, aí, a história também começa cedo. Platão viaja
para a Sicília a fim de convencer o tirano Dionísio a colocar em prática as
suas ideias de governo - e acaba por ter de fugir; Séneca privou intimamente
com o tirano Nero; Voltaire correspondeu-se com monarcas absolutos (Catarina da
Rússia e Frederico da Prússia) e não pareceu muito incomodado com as suas
práticas; Heidegger militou no partido nazi e proferiu discursos elogiosos para
o regime; Foucault apoiou a revolução islâmica no Irão; Sartre apoiou Estaline
e, mais tarde, o regime maoísta chinês. Etc.
Claro que se poderá
argumentar, dizendo que tais filósofos pensaram (ingenuamente?) ser capazes de
influir positivamente na arena política, mas nesse caso não se terão levado
demasiado a sério? terão sido, verdadeiramente, filósofos, partilhando e afirmando
o tal sentido crítico? Quem determina que o filósofo está mais capacitado do
que o cidadão comum para determinar como deve ser orientada a vida política, a
vida das massas? Quem lhes conferiu o dom do discernimento?
Filosofar pode ser, então, um
ofício perigoso. Mas não só para os filósofos. Também para aqueles que sofrem
as consequências das suas ideias. E isso é algo que se esquece facilmente e,
frequentemente, tem consequências desastrosas porque as ideias, essas entidades
abstractas, afectam as vidas concretas.
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