Livre-arbítrio e determinismo

 "Mas para que ninguém, com base no que dissemos, julgue que afirmamos que os acontecimentos decorrem segundo a necessidade do destino, em virtude de termos falado de factos conhecidos de antemão, resolveremos também essa dificuldade. As penas, os castigos e as recompensas são dadas a cada um conforme o mérito das suas acções; aprendemos isto dos profetas e mostraremos que é verdade. De facto, se não fosse assim, mas tudo sucedesse por força do destino, então absolutamente nada dependeria de nós. Se, na verdade, é o destino que faz com que este seja bom e aquele mau, nem o primeiro é aceitável nem o segundo reprovável. Por outro lado, de o género humano não tem poder, pelo livre-arbítrio, para evitar o mal e preferir o bem, não pode considerar-se responsável por nenhuma das suas acções. Mas eis como demonstraremos que o homem se comporta de modo justo ou errado por escolha livre (...). Efectivamente, vemos que o mesmo homem passa de um comportamento ao oposto. Ora, se o que é mau ou o que é bom fosse regulado pelo destino, não teria a possibilidade de escolhas contrárias, e não mudaria tão frequentemente o seu comportamento."- Justino, Apologia, in Isidro Lamelas, Os Padres da Igreja, Lisboa, Universidade Católica, 2020, p.182.

O problema do livre-arbítrio é objecto de reflexão filosófica desde há muito, seja em contexto laico ou religioso, como se comprova por este excerto da obra de um dos primeiros pensadores cristãos. Justino, nascido por volta do ano 100 e morto em 165, no reinado do imperador Marco Aurélio, faz aqui a defesa do livre-arbítrio, conferido ao homem por Deus e em oposição à noção de destino (ou similares) defendida na Antiguidade por alguns.

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